Esp ço

nadaem

Enquanto há um lapso criativo, há também uma nulidade. É como se só existisse verdade nos extremos. De fato, acredito nisso. Acho há muito que a arte reside na nuance, e os extremos são importantes pra dinâmica do processo.

Não sei até onde é importante perceber a dualidade humana, pessoalmente. Só racionalizar não tem me ajudado tanto quanto parecia ajudar antes. Vejo mais como conformismo, ou tragédia declarada (perdão pela redundância).

 

Queria uma noite eterna, uma festa sem canção, uma canção de festa, uma canção de tristeza, um brinde, um porre, uma abstenção, um óculos novo e sanidade, -mas nem tanta- que de tanto enlouquecer, uma hora a gente cansa, e de tanto ser normal, uma hora a gente enlouquece.

 

É como se fosse possível compor uma imagem só na imaginação, e na prática ela nunca pudesse ser finalizada. É uma obra incompleta, e se é que existem obras completas de fato, afinal, as melhores obras são aquelas que estão sempre sendo completadas. O plano é muito maior, nós sempre temos acesso somente ao recorte. E aí mora poesia. Dar cor, controlar o recorte. E é tão lindo quando naturalmente há poesia nos recortes.

Tudo que é bonito em uma história de amor, se contado especificamente e em ordem cronológica tem um impacto emocional, e gera aquela intenção miserável de mendigar afeto. Nenhuma relação deveria ser baseada na dívida. Ninguém deve nada além de respeito e honestidade. Não se deve esperar uma pessoa que não se interessa; interesse. Parece óbvio, mas muitas vezes damos demais esperando -mesmo quando dizemos que não- que o outro retribua. Não há de se perder tempo, é o mesmo que esperar um abraço de uma parede.

E que fique claro que minha intenção é resolver a desgraçada cabeça.

do alto da minha condição

abro-me à ajuda

espero uma solução

alguém que pode, por profissão

me fazer ver as mazelas uma-a-uma

 

 

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam, .
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.                     Não se Mate – Carlos Drummond de Andrade

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